sexta, 20 de julho de 2018

A obesidade é uma questão política

A obesidade é uma questão política

por Rebrae 20/11/17

Estima-se que 4.500.000 brasileiros têm indicação formal para realizar cirurgia bariátrica, segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). Levando-se em conta o ritmo de aproximadamente 100.000 procedimentos realizados por ano, seriam necessários 45 anos – quase meio século – para atender a todos que se encontram hoje em estado de obesidade mórbida. Some-se, ainda, todos os aqueles que terão obesidade mórbida ao longo desse período (dados do Ministério da Saúde apontam um crescimento de 60% no número de obesos na última década) e o resultado é uma conta que não fecha. Mais do que isso, esses números são o retrato simbólico de como fracassamos – e seguimos fracassando enquanto sociedade – no enfrentamento desta epidemia.

A obesidade ainda é largamente associada a comportamentos individuais. Um mal que acomete aqueles que não têm disciplina alimentar e que fraquejam diante das “tentações”. Sem força de vontade para a prática regular de exercícios físicos, o indivíduo descuidado engorda a tal ponto de colocar sua vida em risco. É, portanto, responsável único pela situação em que se encontra. Essa visão sobre a obesidade – e as pessoas com obesidade – é falsa e precisa mudar.

A obesidade é muito mais do que uma questão de disciplina e força de vontade.

Atualmente, 57% da população brasileira adulta tem excesso de peso – 20% das pessoas desse grupo tem obesidade. Nos últimos 35 anos, o número de brasileiros com obesidade mais do que dobrou entre as mulheres e quase quintuplicou entre os homens. É bastante improvável que o problema destas milhões de pessoas, inclusive crianças, seja explicado pela falta de disciplina e preguiça.

O aumento acelerado da obesidade é relacionado, sobretudo, a mudanças no padrão alimentar da população. Especialmente o aumento do consumo de produtos ultraprocessados, popularmente chamados de industrializados, com baixo ou nenhum valor nutricional e altos níveis de sódio, gorduras ou açúcares. Esses itens vêm substituindo a uma dieta rica em produtos naturais e pouco industrializados. Já existe um conjunto robusto de evidências científicas que provam a relação entre o consumo destes produtos de má qualidade e o aumento do excesso de peso.

Não é só um problema na balança. A obesidade traz consigo complicações fatais, como diabetes e doenças do coração. Elas estão hoje entre as principais causas de morte evitáveis no Brasil. A obesidade também é fator de risco para a ocorrência de 13 tipos de câncer, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Considerando o número de pessoas atingidas e a natureza estrutural do problema, não há dúvidas que este é um problema de Estado. E, como tal, seu enfrentamento precisa se dar pela via das políticas públicas. Diferentes setores da sociedade, como a Aliança pela Alimentação Saudável e Adequada, coletivo de organizações e pessoas comprometidas com o bem público, podem contribuir. Mas são as políticas públicas que podem viabilizar ou não as mudanças necessárias.

O aperfeiçoamento dos rótulos dos alimentos industrializados é uma delas. Todos nós temos o direito de saber o que comemos. E a informação só é efetiva se é compreendida e auxilia a tomada de decisão. A rotulagem nutricional tal qual existe hoje é incompleta, insuficiente e, em muitos casos, enganosa. A forma atual dos rótulos de alimentos mais confunde do que ajuda nossas escolhas..

Efetivar a proibição da publicidade de alimentos dirigida ao público infantil é outra medida importante. Hoje, uma em cada três crianças de cinco a nove anos tem excesso de peso no Brasil, e a obesidade na infância tende a permanecer por toda a vida adulta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já declarou que o marketing e a publicidade de alimentos industrializados influencia o desenvolvimento de hábitos não saudáveis por parte das crianças.

Medidas fiscais que visem criar uma barreira econômica que dificulte o acesso a alimentos não saudáveis, como bebidas açucaradas, e a promoção de hábitos saudáveis em ambientes institucionais como as escolas também fazem parte de um enfrentamento diversificado e multissetorial.

Enfrentando as resistências de setores que contribuem e lucram com a produção, comercialização e publicidade destes produtos, inúmeros países, na América Latina e no mundo, têm colocado a saúde pública no centro das discussões e decisões e adotado essas medidas.

É preciso reconhecer que o Brasil tem expressado formalmente sua vontade política. A assinatura de pactos internacionais e o desenho de planos nacionais sinalizam nesta direção. Mas não basta. As intenções e os planos precisam ser colocados em prática. É preciso mais e é preciso agora.

O Brasil tem a obrigação de, à luz de um enorme saber que se acumula com experiências internacionais e estudos científicos, andar mais rápido. Ou acabaremos todos na fila da cirurgia bariátrica.

*Ana Carolina Feldenheimer é professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Elisabetta Recine é professora da Universidade de Brasília e presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) e Inês Rugani é professora da UERJ e membro da Abrasco. As três participam do comitê gestor do movimento Aliança pela Alimentação Saudável e Adequada.

Fonte: OGlobo



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