segunda, 23 de julho de 2018

Em longa guerra contra a obesidade, o Chile “mata” Tony, o Tigrão

Em longa guerra contra a obesidade, o Chile “mata” Tony, o Tigrão

por Rebrae 22/02/18

Novos regulamentos, atrasados por quase uma década por interesses corporativos, exigem rotulagem explícita e limitam a comercialização de alimentos açucarados para crianças.

Santiago, Chile – Eles mataram Tony, o Tigrão. Eles acabaram com Chester Cheetah da Cheetos. Eles baniram a surpresa do Kinder Ovo, ovo de chocolate que encondia um brinquedo.

O governo chileno, enfrentando as altíssimas taxas de obesidade, está travando guerra contra alimentos não-saudáveis com um conjunto de restrições de marketing, reformulação obrigatória de embalagens e regras de rotulagem destinados a transformar os hábitos alimentares de 18 milhões de pessoas.

Especialistas em nutrição dizem que as medidas são as mais ambiciosas do mundo na tentativa de recuperar a cultura alimentar do país e podem ser um modelo de como reverter a epidemia global de obesidade, a qual pesquisadores dizem contribuir com quatro milhões de mortes prematuras por ano.

“É difícil dizer o quão significativas são as ações do Chile – ou o quão difícil foi chegar lá, considerando as pressões usuais”, disse Stephen Simpson, diretor do Centro Charles Perkins, uma organização de estudiosos da área de nutrição, obesidade e política. As multibiolinárias indústrias de alimentos e refrigerantes têm exercido pressões para evitar a regulação em muitos outros países.

Desde que a lei foi promulgada dois anos atrás, obrigou as gigantes multinacionais, como Kellogg, a retirar os icônicos personagens das caixas de cereais açucarados e banir a venda de doces, como Kinder Ovo, que usa bugigangas para atrair o público infantil.

No início do próximo ano, as propagandas serão completamente excluídas da TV, das rádios e do cinema entre as 6h da manhã e as 10h da noite. Em um esforço para incentivar o aleitamento materno, a proibição de propagandas de fórmulas infantis começa nesta primavera.

Ainda desejando Coca-Cola? No Chile, as bebidas com alto teor de açúcar incluem um imposto de 18%, que está entre os maiores impostos de refrigerante do mundo.

A chave da iniciativa é um novo sistema de rotulagem que exige que as empresas de alimentos embalados exibam grandes símbolos negros, na forma de um sinal de parada (hexágono), em produtos com alto teor de açúcar, sal, calorias ou gorduras saturadas.

As indústrias de alimentos chamam as regras governamentais de excessivas. Felipe Lira, o diretor da Chilealimentos, uma associação da indústria, disse que a nova rotulagem nutricional é confusa e “invasiva” e que as restrições de propaganda são baseadas em falsas correlações científicas entre promoção de alimentos não-saudáveis e ganho de peso. “Nós acreditamos que o melhor caminho para resolver o problema da obesidade é uma educação que mude hábitos dos consumidores,” ele disse em uma declaração por email.

PepsiCo, criador do Cheetos, e a Kellogg’s, fabricante do Sucrilhos, foram ao tribunal, argumentando que as regulações infringem suas propriedades intelectuais. Os casos estão pendentes.

María José Echeverria, porta-voz da PepsiCo, disse que a companhia está em total conformidade com a lei, e não tem interesse em derrubá-la; só está tentando proteger seu direito (ability) de usar uma marca registrada localmente.

Kellogg se recusou a comentar.

O crescimento das taxas de obesidade está forçando governos ao redor do mundo a confrontar uma das mais sérias ameaças à saúde pública da geração.

Até o final dos anos 80, desnutrição foi dominante entre chilenos de classes mais pobres, especialmente entre as crianças. Hoje, três quartos dos adultos possuem sobrepeso ou obesidade, de acordo com o Ministério da Saúde do país. Os funcionários do Ministério estão particularmente alarmados com as taxas de obesidade infantil, que estão entre as mais altas do mundo, com mais de metade das crianças de 6 anos com excesso de peso ou obesas.

Em 2016, os custos da obesidade alcançaram 800 milhões de dólares, ou 2,4% de todo gasto em saúde; cenário que analistas dizem que alcançará cerca de 4% em 2030.

Essas estatísticas ajudaram a reunir uma coalizão de políticos-eleitos, cientistas e defensores da saúde pública que derrotaram a oposição feroz das empresas de alimentos e seus aliados no governo.

“Foi uma dura batalha de guerra”, disse o senador Guido Girardi, vice-presidente do Senado chileno e médico que propôs os regulamentos em 2007. “As pessoas têm o direito de saber o que essas empresas de alimentos estão colocando neste lixo e, com esta legislação, acho que o Chile fez uma enorme contribuição para a humanidade”.

“Veneno do Nosso Tempo”

Da Índia à Colômbia, aos Estados Unidos, países ricos e pobres estão lutando para combater o aumento da obesidade – e encontrando resistência feroz das empresas de alimentos ansiosas para proteger seus lucros.

No Chile, os interesses corporativos atrasaram a aprovação da lei por quase uma década e, em duas ocasiões, houve tantos lobistas que se aglomeraram nas audiências do Congresso, em função do projeto de lei, que o presidente do Senado foi forçado a suspender as sessões e limpar a sala.

Mas a indústria raramente enfrenta oponentes como o senador Girardi. Um cirurgião treinado com um tato para o teatro, ele é uma figura-chave na coalizão governamental da presidente Michelle Bachelet. Durante a longa briga sobre a Lei de Alimentação, o senador Girardi, de 56 anos, atacou publicamente as grandes empresas de alimentos como “pedófilos do século 21” e, antes de a Sra. Bachelet assumir o cargo, passou semanas protestando fora do palácio presidencial com cartazes que acusavam seu antecessor, Sebastián Piñera, de destruir a saúde do país vetando uma versão anterior da legislação.

“O açúcar mata mais pessoas do que terrorismo e acidentes de carro combinados”, disse ele em uma entrevista enquanto sacudia uma caixa de cereais Trix. “É o veneno do nosso tempo”.

Existiam outros fatores que tornaram possível a legislação, incluindo um legislativo determinado a enfrentar os crescentes custos econômicos da obesidade e o apoio da Sra. Bachelet, uma socialista que também é pediatra.

No final, a pressão da indústria conseguiu abrandar algumas medidas na legislação original, incluindo a redução das restrições publicitárias e a anulação de uma proposta de proibição de venda de alimentos não-saudáveis perto das escolas.

Corredores Estranhos de Mercados

Passear por um supermercado chileno pode ser visualmente perturbador. Caixas de chocolate em pó Nesquik já não incluem o coelho da Nestlé. Também se foram os doces dançantes que animam pacotes de M&Ms em todo o mundo.

Ainda, há os sinais de alerta que aparecem na frente de inúmeros produtos.

Barras de cereais, iogurtes e sucos de caixinha, produtos anunciados como “saudáveis”, “naturais” ou “fortificados com vitaminas e minerais”, agora possuem uma ou mais sinais de advertência pretos.

“Nunca mais prestei atenção aos rótulos”, explicou Patricia Sánchez, 32, contadora e mãe de duas crianças, ao encher seu carrinho de compras em um supermercado de Santiago, com a ajuda ocasional de sua filha de 7 anos “Mas agora eles o obrigam a prestar atenção. E se eu não perceber, meus filhos fazem. “

As taxas de obesidade no Chile ainda não caíram, e os especialistas dizem que pode levar anos para modificar significativamente a forma como as pessoas comem. Contudo, concentrando-se na embalagem e na publicidade de alimentos não-saudáveis que atraem crianças, o governo chileno espera mudanças na próxima geração de consumidores.

“Você precisa mudar todo o sistema alimentar e não pode fazer isso durante uma noite”, disse a Dra. Cecilia Castillo Lancellotti, ex-chefe de nutrição no Ministério da Saúde do país e uma das primeiras pessoas a propor a Lei.

Os novos regulamentos, no entanto, já provocaram uma resposta inesperada: as empresas de alimentos modificaram voluntariamente seus produtos para evitar os terríveis sinais negros.

De acordo com a AB Chile, uma associação da indústria alimentar, mais de 1.500 itens, ou 20% de todos os produtos vendidos no Chile, foram reformulados em resposta à Lei. A Nestlé reduziu o açúcar em seu chocolate em pó Milo, o McDonald’s oferece purê de frutas, iogurte e tomates-cereja em Happy Meals, e as empresas locais estão introduzindo novos produtos, como castanhas e nozes, bolos de arroz e frutas secas para vender nas escolas.

No mês passado, a Coca-Cola iniciou uma campanha publicitária para as novas versões de Sprite e Fanta, que possui o slogan “Livre de Sinais, Igualmente Gostosos” – um aceno para o fato de que eles não contêm mais rótulos de advertência, porque a empresa substituiu a metade do açúcar com adoçante artificial.

Ben Sheidler, porta-voz da Coca-Cola, disse que a empresa criou 32 novas bebidas nos últimos 18 meses e que 65% do portfólio de bebidas no Chile agora podem ser descrito como tendo baixo ou reduzido teor de açúcar.

Um porta-voz da PepsiCo disse que dois terços de suas marcas de bebidas no Chile também se classificaram como baixo ou sem açúcar e que mais de 90% de suas ofertas de lanches agora possuíam baixo teor de sódio e de gorduras saturadas.

Outras empresas adotaram o sistema de advertências como uma forma de promover ofertas saudáveis. Soprole, uma produtora de produtos lácteos chilenos, produziu um comercial que conta com apresentadores infantis que explicam a rotulagem de maneira que seus pares possam entender.

“Originalmente, não acreditávamos que o sistema de advertências faria muita diferença, mas, em grupos focais, descobrimos que as crianças realmente as olham”, disse a Dra. Camila Corvalan, da Universidade do Chile, que vem avaliando o impacto da nova rotulagem. “Eles vão dizer: Mãe, isso tem tantos sinais de advertências. Não posso levá-los para a escola. Meu professor não permitirá”.

Logo que os sinais de advertências começaram a aparecer, a AB Chile lançou um anúncio on-line, usando celebridades chilenas, para atacar os novos regulamentos. Em uma cena, um conhecido apresentador de televisão, doente e apoiado em sua suposta cama, olha para uma bandeja de sopa, biscoitos e confeitaria – itens que ele disse que a nova Lei julgou como não saudável. “Isto é o que minha mãe me deu toda a minha vida e não posso comer?”, ele pergunta com indignação. Em outra, uma atriz puxa um montão de balas de seu bolso. “É óbvio que eles são altos em açúcar”, diz ela. “Mas eu só como duas ou três”.

O anúncio que provocou uma feroz reação viral on-line foi um contra-ataque, em que o ator chileno Pablo Schwartz publicou um vídeo de si mesmo pensando em um pequeno monte de pó branco. “Todos dizem que a cocaína é ruim, é claro, mas você inalaria 250g de uma só vez?”, ele pergunta antes de inalar a quantidade e, em seguida, adiciona “Está tudo relacionado à porção”.

A associação matou sua propaganda, criticando os novos regulamentos.

O trabalho de implementar as regras cabe a um grupo de consultores técnicos que se reúnem semanalmente no Ministério da Saúde e fornecem orientação sobre se uma empresa deve remover o personagem de pacotes de bolachas ou se a voz de um adulto deve substituir a das crianças.

“Às vezes, é fácil, como se um cachorro estivesse usando óculos e falando como uma pessoa, mas às vezes não é”, disse a Dra. Lorena Rodriguez, chefe de nutrição do Ministério. “Nós discutimos até que tenhamos consenso”.

O Dr. Jaime Burrows Oyarzún, vice-ministro da saúde pública, confia que o governo prevalecerá no tribunal. Como principal árbitro dos novos regulamentos, muitas vezes, ele sofre o peso da ira da indústria. Após a proibição de Kinder Ovo, um executivo da Itália e o embaixador italiano no Chile o acusaram de promover “terrorismo alimentar” durante uma visita a seu escritório, lembrou em uma entrevista.

Mauro Russo, diretor-gerente da Ferrero, fabricante do Kinder Ovo, disse que a Lei havia sido aplicada erroneamente no seu produto, porque o brinquedo é uma parte intrínseca do produto, não um “instrumento promocional”, que procura estimular as vendas, conforme descrito na legislação. Ele também contestou a noção de que o produto não é saudável, observando que cada ovo contém 110 calorias e que poucos consumidores compram mais de um ou dois por ano. “O impacto do Kinder Ovo na obesidade é muito superficial”, disse ele.

Alguns advogados da nutrição se perguntam quanto tempo a lei irá sobreviver na sua forma atual. O Sr. Piñera, o ex-presidente que foi recentemente eleito e sucederá a Sra. Bachelet em março, é um homem conservador, de negócios, que vetou o projeto de Lei de Alimentação em 2011, durante seu primeiro mandato. Em vez disso, seu governo apoiou uma iniciativa financiada por empresas multinacionais de alimentos, que deu destaque a receitas saudáveis, prática de atividade física e consumo moderado, quando se trata de alimentos não-saudáveis. A campanha foi o projeto da primeira-dama, Cecilia Morel Montes.

“Não precisamos de mais impostos”, disse ela em uma entrevista.

Um porta-voz do Sr. Piñera disse que provavelmente examinaria a lei e irá procurar maneiras de “melhorá-la” depois de assumir o cargo.

Enquanto isso, outros países da América Latina, entre eles o Equador e o Brasil, estão tentando absorver elementos da iniciativa chilena. Dr. Carlos A. Monteiro, professor de nutrição e saúde pública na Universidade de São Paulo no Brasil, disse que líderes em toda a região não podem mais ignorar o aumento dos custos com o tratamento de doenças relacionadas à alimentação, como diabetes e hipertensão.

“A epidemia de obesidade é tão clara e prejudicial para toda a população, incluindo a elite política, e nenhum país está conseguindo controla-la sem regulação do ambiente alimentar”, afirmou. “Fazer nada não é mais uma opção.”

Fonte: RedeNutri

Matéria original: https://www.nytimes.com/2018/02/07/health/obesity-chile-sugar-regulations.html



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