quinta, 23 de maio de 2019

Aplicativo identifica rótulos de alimentos e orienta sobre a qualidade seguindo o Guia Alimentar

Aplicativo identifica rótulos de alimentos e orienta sobre a qualidade seguindo o Guia Alimentar

por Rebrae 20/02/19

Desrotulando é um app que oferece orientação alimentar e avalia a qualidade dos produtos disponíveis nos supermercados por todo o Brasil. Fundamentado no Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, ele viralizou nas últimas semanas e se tornou um dos aplicativos mais baixados das lojas App Store e Google Play

O aplicativo existe desde 2016, criado por iniciativa do empresário Gustavo Haertel Grehs e da nutricionista Carolina Grehs, mas fermentou e ganhou fama como nunca antes. Após o vídeo do aplicativo viralizar no Whatsapp, feito de forma amadora pelo usuário Paulo Miranda, de Goiânia, o aplicativo multiplicou a base de usuários exponencialmente e se tornou tendência. “Nossos números eram em torno de 700 downloads por dia. Quando algum influenciador grande anunciava, ficava em 2 mil. Depois do vídeo que viralizou, chegamos a 60 mil, depois 50 mil e agora estamos em torno de 20 mil downloads por dia”, diz Carolina, em entrevista ao Joio.

A velocidade com que o Desrotulando cresceu chama atenção sobre uma necessidade: ter mais qualidade e quantidade de informações acerca dos alimentos que consumimos. Paulo, autor do vídeo que fez a massa de usuários crescer, conta que começou a utilizar o app porque ele e sua esposa queriam encontrar alimentos mais saudáveis para o seu filho, que, mesmo jovem, sofria de gastrite. “Baixei o aplicativo e fiz um vídeo para o grupo da família, minhas irmãs. Mostrei, expliquei e passei para eles. Não sei quem foi passando para amiga, foi de amigo em amigo, e aí a coisa foi embora.”

O aplicativo, com versões gratuita e paga, funciona como uma espécie de biblioteca colaborativa. Na sua memória estão os rótulos dos mais diversos alimentos industrializados disponíveis nas gôndolas de supermercados. Esses produtos são avaliados em uma nota de 0 a 100 de acordo com o seu grau de processamento — quanto mais processado, pior; quanto mais próximo do in natura, melhor — e conforme os ingredientes, como aditivos, que pioram a nota. O 100 corresponde à classificação excelente e o zero, à muito ruim.

Para consultar a qualidade de um alimento, você pode abrir o app e então escanear o rótulo de um produto que deseja consultar. Caso ele esteja na base de dados do Desrotulando, o perfil, com nota e classificação, será exibido na tela. Caso o produto não tenha sido incluído, qualquer usuário pode fotografar o rótulo e de forma colaborativa enviar para ser avaliado pela equipe do Desrotulando.

O objetivo é auxiliar as pessoas a encontrarem produtos menos processados, com menores teores de ingredientes ruins. Sanar as dúvidas, como as que Paulo tinha, sobre rótulos, tabelas nutricionais e, ainda, propagandas enganosas em alimentos é uma das premissas, afirma Carolina. “A rotulagem [dos produtos] não é clara. A pessoa não consegue entender o que são aqueles açúcares todos, aqueles aditivos. Tem uma diferença grande entre a propaganda no rótulo e o que realmente é o produto. A gente traduz essas informações para a ajudar pessoa a consumir”, ela explica.

Melhorar a rotulagem

A iniciativa da nutricionista toca em uma das principais discussões há algum tempo entre os profissionais da saúde: como melhorar a rotulagem de alimentos, sobretudo daqueles ultraprocessados. Debate-se como avisar acerca de aditivos não saudáveis e das volumosas quantias de açúcar, sal e gorduras, cujo consumo em excesso está associado aos índices mundialmente crescentes de doenças crônicas não transmissíveis como obesidade, hipertensão e diabetes.

No Brasil, a discussão deste tema está em pauta em locais como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que estuda qual a melhor forma de alertar sobre o excesso de sal, açúcar e gorduras em alimentos ultraprocessados. Até meados do ano passado, a Anvisa se inclinava a um modelo semelhante ao que é usado no Chile, com triângulos pretos dizendo “alto em” na frente dos rótulos, especificando o nutriente que está além dos patamares saudáveis.

Modelos de rotulagem em discussão no Brasil

Acontece, no entanto, que a discussão conflituante em Brasília fez a pauta sobre os alertas retroceder. Hoje, estuda-se um aviso em forma de semáforo que é para lá de controverso — é o preferido pela indústria de alimentos; ou seja, pelas mesmas empresas que não querem te informar, com a devida transparência e cuidado, sobre os alimentos não saudáveis que vendem.

Mas existe consenso que a rotulagem dos alimentos deve mudar e, de preferência, para se tornar mais fácil de entender. A legislação brasileira contém algumas brechas que permitem “esconder” substâncias controversas como gordura trans. Caso um ingrediente seja parte mínima de um alimento industrializado, como gotas de chocolate, por exemplo, não é necessário explicitar qual a composição deste chocolate; isto é, ele pode conter gorduras trans e você nem saber.

“Hoje as informações não são suficientes. Acho que tem muito para melhorar na transparência do produto”, afirma a criadora do Desrotulando. Por isso, ela diz, é importante que as pessoas tenham outros meios para encontrar as informações de que precisam.

Enquanto as normas para a rotulagem de alimentos permanecerem frágeis e não houver explicações mais claras para os consumidores, é importante fornecer orientação por outras vias, como pelo Desrotulando. “São coisas da minha prática que a gente tenta deixar mais claro. É preciso ter conhecimento técnico para entender. Sacarose, por exemplo, é açúcar, mas não indicam que é açúcar. A regulação é permissiva e atrapalha a transparência”, detalha Carolina.

Inspiração no Guia Alimentar

Para avaliar a qualidade e mostrar a quantidade de aditivos e quantidades maléficas nos alimentos, o Desrotulando se apoia no Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde. O documento é uma das referências técnicas que o aplicativo usa para dar a nota aos produtos. Além dele, o app atribui as notas fundamentado em resoluções, decretos e portarias da Anvisa, na Ley de Alimentos Manual Etiquetado Nutricional, do Chile, e no Modelo de Perfil Nutricional da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

O documento do governo federal, de 2014, utiliza a classificação NOVA para dizer quais os melhores tipos de alimentos a se consumir — em outras palavras, ajuda a mostrar aquilo que é ou não é saudável. Descreve os grupos de alimentos de acordo com os níveis de processamento e tratamento a que são submetidos. No geral, dá três letras: 1. consuma produtos in natura ou minimamente processados; 2. diminua a ingestão de alimentos processados; e 3. evite os ultraprocessados, porque estes fazem mal.

O Guia surgiu em um momento oportuno. O Brasil passa por uma transição nutricional de sua população. A fome estava em vias de ser superada, mas, contraditoriamente, os índices de problemas de saúde decorrentes da alimentação ruim, cresciam em proporção semelhante. Daí, era necessário oferecer orientações para manter, de um lado, o que era conquista e evitar, de outro, um problema que só engordava. A classificação NOVA, na qual se baseia o Guia, quebrou muitos paradigmas na nutrição, entre eles a ideia da Pirâmide Alimentar, tornada ultrapassada.

“Quando a gente começou o trabalho, em 2012, ainda não existia o Guia. Mas, quando lançaram o Guia, ele veio totalmente no sentido do que a gente já vinha fazendo”, recorda Carolina, que diz que as orientações no documentos são a base para calcular as notas que o aplicativo dá aos rótulos. Por isso o Guia é importante. O que antes era um Guia baseado nos macronutrientes [como a Pirâmide Alimentar] tornou-se baseado na qualidade do alimento. A gente não consome o nutriente isolado, a gente consome todo, no alimento inteiro”, acrescenta a nutricionista.

A relação entre o aplicativo e o Guia é tão forte que, no momento, a Carolina e o Gustavo estão em contato com alguns dos pesquisadores que formularam o Guia Alimentar e a classificação NOVA para fazer atualizações no Desrotulando. As duas partes estão trabalhando em como melhorar a detecção de aditivos nos alimentos processados e ultraprocessados. Por exemplo, em como diferenciar substâncias que só servem para alterar aparência ou gosto.

Ainda existem otimistas

Nesses mais de dois anos trabalhando com o Desrotulando, e pelo menos cinco desde a publicação do Guia Alimentar, Carolina afirma que está otimista sobre a qualidade dos alimentos nas gôndolas. “Muitas vezes, o mesmo fabricante oferece as três versões de um mesmo produto: minimamente, processada e ultraprocessada. Acho que é uma questão de o consumidor estar mais consciente do que está consumindo. O público está mais consciente, e a indústria vai procurando se ajustar. A gente vai tendo um termômetro.”

Ainda existem otimistas, diferentemente deste repórter — que vê iniciativas da indústria aquéns do que é realmente necessário, como nas metas de redução de açúcar. Para a Carolina, no entanto, o primeiro indicativo de que as coisas estão mudando é que os consumidores estão mais atentos. “O que a gente tem que fazer é a conscientização do consumidor. Educar a consumir melhores produtos desde criação. É uma questão cultural. A indústria quer vender. Se tiver todo mundo consumindo só produtos saudáveis, ela venderá produtos saudáveis.”

Além da versão gratuita, o Desrotulando tem um serviço premium, pago, que oferece mais informações nutricionais, ajudando o usuário a personalizar suas compras. Por exemplo, alguém que tem diabetes pode usar o aplicativo para mostrar aqueles produtos com baixos índices de açúcares ou alguém que está procurando emagrecer pode calibrar o aplicativo para lhe indicar alimentos menos calóricos. Para entender melhor, o jeito é fazer o download e continuar se informando.

FONTE: OUTRAS PALAVRAS



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