segunda, 22 de outubro de 2018

Tema Educação Alimentar e Nutricional nos currículos escolares a partir de 2019

Tema Educação Alimentar e Nutricional nos currículos escolares a partir de 2019

por Rebrae 04/10/18

Por lei, assunto deve ser incorporado às disciplinas de ciências e biologia a partir do ano letivo de 2019.  

A partir de 2019, os currículos do ensino fundamental e médio deverão incluir o tema da educação alimentar e nutricional nas disciplinas de ciências e biologia, respectivamente.

A obrigatoriedade foi determinada pela lei 13.666/2018, sancionada pelo presidente Michel Temer em maio de 2018. A nova norma alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, passando a incluir o assunto no currículo escolar como tema transversal.

Como entra em vigor seis meses após a sanção, começará a valer no ano letivo de 2019.

O objetivo, segundo Lobbe Neto autor do projeto, é reduzir a obesidade infantil e assegurar informações sobre alimentação saudável desde cedo.

Segundo um estudo publicado em 2016 na revista científica The Lancet, o índice de obesidade no Brasil, entre meninos, saltou de 0,93% para 12,7% e, entre meninas, de 1,01% para 9,37%, nas últimas quatro décadas.

Na definição do Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas, de 2012, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento Social – ao qual competem os temas de segurança alimentar e alimentação saudável –, a educação alimentar e nutricional é “um campo de conhecimento e de prática contínua (…) que visa promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis”.

Tem sido considerada uma estratégia fundamental para a prevenção e o controle dos problemas alimentares e nutricionais contemporâneos, como as doenças crônicas não transmissíveis e as deficiências nutricionais, como obesidade, colesterol alto, hipertensão e diabetes. Contribui também para a valorização das diferentes expressões da cultura alimentar, o fortalecimento de hábitos regionais, a redução do desperdício de alimentos e a promoção do consumo sustentável e da alimentação saudável.

O marco diz ainda que a prática deve fazer uso de “abordagens e recursos educacionais problematizadores e ativos que favoreçam o diálogo junto a indivíduos e grupos”, considerando “todas as fases do curso da vida, etapas do sistema alimentar e as interações e significados que compõem o comportamento alimentar”.

  • Por que incluir no ensino básico?

Em entrevista ao Nexo, a professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais, Luana Caroline dos Santos, diz que a função da educação alimentar e nutricional é  empoderar os indivíduos, por meio do conhecimento, em relação a suas escolhas alimentares.

“Acredito que a lei é um avanço importante em relação à alimentação infantil, tendo em vista os problemas nutricionais já identificados nesse período, que antes estavam presentes só na população adulta”, disse Santos.

“A alimentação escolar é uma pauta nesse momento, é possível fazer muitas coisas nessa interdisciplinaridade. Ainda bem que temos a lei agora para nos respaldar, falar sobre a alimentação natural e pontuar, para os alunos mais velhos, o que a indústria [alimentícia] faz”, disse ao Nexo a embaixadora do programa Food Revolution (criado pelo chef Jamie Oliver) no Brasil, Lara Folster.

“Acho que o maior impacto vai ser uma sensibilização sobre a importância para a saúde de uma alimentação equilibrada, mas também prazerosa”, diz a professora da UFMG. Segundo ela, abordar alimentação e nutrição em sala pode contribuir para um resgate da “comida de verdade”, que diminua o consumo de alimentos ultraprocessados e privilegie os in natura, consumidos frescos.

Espera-se que o trabalho de conceitos de alimentação e nutrição desde cedo aja sobre a formação e consolidação de hábitos alimentares mais saudáveis, que acompanhem os alunos até a idade adulta.

  • Como deve ser abordada na prática

A indicação da lei para que o tema transversal entre em cena nas aulas de ciências e biologia direciona para uma abordagem ligada à saúde, na avaliação da professora da UFMG.

Mas “na verdade, pode-se trabalhar a nutrição em todas as disciplinas”, diz Santos. “Em geografia e história, pode-se perguntar de onde os alimentos vêm, qual sua origem geográfica, como foi a evolução do preparo culinário”.

Além de embaixadora do Food Revolution, Lara Folster é fundadora da empresa Lanche&Co, que reformula cantinas de escolas para torná-las mais saudáveis e oferece aulas de educação alimentar e nutricional.

“Na educação nutricional e alimentar em sala de aula que a gente já pratica há seis anos, apostamos muito na junção com outras matérias. Por exemplo, em história: como os alimentos chegavam no Brasil; por que eram salgados antes de serem utilizados; como era alimentação das pessoas naquele momento; de onde vinha o que comiam; se havia industrializados. [Questões] que agucem a curiosidade dos alunos, para não ser monótono, mais uma matéria que entraria no currículo”, disse Folster.

Com os mais velhos, ela diz ser possível fazer, por exemplo, um pão de levain ou um bolo na aula de química. Na educação infantil, destaca a importância de ensinar o reconhecimento dos alimentos que as crianças ainda não conhecem ou não sabem diferenciar.

“Nessa fase, com os mais novos, falar de alimentação é um momento lúdico, um momento muito feliz. Eles estão muito abertos”, diz Folster.

A obrigatoriedade da educação alimentar e nutricional no ensino irá exigir capacitação dos professores, que deve ocorrer em médio e longo prazos.

“Vários municípios e estados já realizam essas capacitações através das secretarias de saúde, das secretarias municipais de segurança alimentar e nutricional, como é o caso de Belo Horizonte, e isso tem funcionado muito bem”, disse Luana Caroline dos Santos.

 O Ministério da Saúde e o Fundo Nacional de Educação já disponibilizam materiais para os professores com sugestões de atividades.

“Nas aulas de educação nutricional que a gente pratica desde o início [da Lanche&Co, em 2012], a gente percebe que [os alunos] começam a questionar muitas outras coisas”, disse Lara Folster. “Porque perguntar de onde vem o alimento, o porquê de ser ou não industrializado é um questionamento político, poderoso, gostoso e saudável de fazer. Leva a fazer uma escolha melhor para si e gera uma discussão muito legal. A gente tem resultados muito interessantes. A escola é uma porta para a transformação e a gente vê que as coisas mudam [com a educação alimentar]. Queremos ver isso chegar na escola pública e que seja uma mudança de paradigma para o Brasil”.

  • O que são os temas transversais

Os temas transversais passaram a fazer parte do currículo do ensino básico no final da década de 1990, como mecanismos integradores para superar a fragmentação do conhecimento escolar. Os assuntos tratados normalmente dizem respeito a conteúdos de caráter social, incluídos não como uma área de conhecimento específica, mas como parte das áreas que compõem o currículo.

FONTE: NEXO JORNAL LTDA.



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