Guia Completo da Alimentação Escolar para Alunos Celíacos: Direitos, Protocolos e Inclusão

A gestão da alimentação escolar para estudantes com doença celíaca é uma responsabilidade que une saúde, nutrição e o direito constitucional à educação inclusiva. Dentro do PNAE, garantir uma alimentação segura vai muito além do projeto educativo; trata-se de um compromisso legal e técnico com a integridade física e o pleno desenvolvimento de cada estudante.

Na prática, a condição celíaca exige a eliminação rigorosa do glúten da dieta. Isso acontece porque, ao consumir proteínas do trigo, cevada, centeio e malte, o sistema imunológico ataca as vilosidades do intestino delgado, impedindo a absorção adequada de nutrientes essenciais para o crescimento. Conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde, o único tratamento eficaz é a dieta isenta de glúten por toda a vida. Portanto, para garantir o equilíbrio dos nutrientes, a escola deve priorizar fontes alternativas de carboidratos, como mandioca, milho e arroz.

A base jurídica que sustenta esse direito é a Resolução CD/FNDE nº 6/2020. O Artigo 26 desta normativa estabelece que a alimentação escolar para alunos da educação básica pública que apresentem necessidades alimentares especiais (NAE), sejam elas temporárias ou permanentes, deve ser oferecida de modo a atender às suas especificidades. Além disso, a legislação equipara a atenção dada ao celíaco àquela oferecida a alunos com diabetes, hipertensão, anemias, alergias e outras intolerâncias alimentares, exigindo adaptações individuais no cardápio escolar.

O grande desafio na prática, porém, é o controle do ambiente para evitar a contaminação cruzada, que ocorre quando um alimento seguro entra em contato acidental com traços de glúten. O referencial técnico do FNDE detalha estratégias essenciais para evitar erros comuns no preparo, como a separação de utensílios, o monitoramento constante da dispersão de partículas de farinha no ambiente e a inspeção minuciosa de rótulos de produtos industrializados. É importante destacar que, embora o guia de 2017 forneça a base técnica, a execução deve observar as atualizações recentes de 2020 e 2025.

Além do suporte nutricional, o FNDE e o PNAE orientam que educadores promovam a inclusão escolar através de três pilares fundamentais: comunicação, higiene e flexibilidade. Nesse contexto, a comunicação antecipada é crucial; visto que, a escola deve informar a família sobre festas de aniversário na sala, o lanche coletivo ou a aula de culinária, permitindo que o aluno participe de forma segura por meio de substituições adequadas. Sobre a higiene, deve haver conscientização e boas práticas de limpeza para evitar que traços de glúten sejam transferidos em áreas de convivência ou superfícies compartilhadas. Por fim, a flexibilidade na rotina escolar deve permitir a adaptação das rotinas biológicas e de saúde do estudante, incluindo o suporte necessário para o uso de medicamentos. Ao integrar esses protocolos clínicos e operacionais, a escola cumpre seu papel de rede de apoio, garantindo que a alimentação seja um fator de integração e segurança para todos os alunos celíacos.

Referências e Links Técnicos:

O QUE A CIÊNCIA DIZ SOBRE VEGETARIANISMO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA?

Nos últimos anos surgiram diversos casos de pais condenados após colocar a saúde e a vida do filho em risco ao impor uma alimentação vegana super restritiva. Mas será que o vegetarianismo é realmente perigoso assim?

TIPOS DE VEGETARIANISMO

Para questões didáticas, aqui iremos falar apenas de vegetarianismo, que é a escolha alimentar de não consumir alguns ou todos os produtos de origem animal – sendo este diferente do veganismo, que vai muito além das escolhas alimentares, ele é um movimento que luta pelos direitos dos animais.

É considerado vegetariano todo aquele que exclui de sua alimentação todos os tipos de carne, aves, peixes e seus derivados, podendo ou não utilizar laticínios ou ovos. Esta alimentação possui classificações de acordo com o nível de restrição ao qual o indivíduo é adepto:

  • Ovolactovegetariano: utiliza ovos, leite e laticínios na alimentação;
  • Lactovegetariano: não utiliza ovos, mas faz uso de leite e laticínios;
  • Ovovegetariano: não utiliza laticínios, mas consome ovos;
  • Vegetariano: não utiliza nenhum derivado animal na sua alimentação;

É NUTRICIONALMENTE ADEQUADO PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES NÃO CONSUMIR ALIMENTOS DE ORIGEM ANIMAL? 

Embora o consumo de carnes ou de outros alimentos de origem animal não seja imprescindível para uma alimentação saudável, a restrição de qualquer alimento obriga que se tenha maior atenção na escolha da combinação dos demais alimentos que farão parte da alimentação – segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira. Mas que combinações seriam essas e por que é necessário se atentar a elas?

Nos alimentos de origem vegetal não temos todos os 9 aminoácidos essenciais presentes em um único alimento; já nos alimentos de origem animal temos todos aminoácidos essenciais presentes em um único alimento (sendo denominadas proteínas de alto valor biológico). Sendo assim, para ter todos os aminoácidos em uma refeição vegetariana é necessário combinar um cereal com uma leguminosa. Por exemplo: o feijão é pobre em metionina, enquanto o arroz é rico em metionina, sendo essa uma combinação perfeita para ter todos os aminoácidos essenciais no prato.

Outro nutriente que vem à tona quando se fala de vegetarianismo é o cálcio que nos alimentos de origem animal é predominante em laticínios; por isso, ovolactovegetarianos e lactovegetarianos ainda podem usufruir dessa fonte. Mas quando se trata dos ovovegetarianos e vegetarianos é necessário o consumo de alimentos como: gergelim, hortaliças verde-escuras (couve, brócolis e etc) e bebidas vegetais enriquecidas com cálcio. Vale lembrar que é importante variar as fontes de cálcio e outros nutrientes, mesmo para quem consome carne, leite e ovos.

A vitamina B12 é o único nutriente ausente na alimentação vegetariana, pois apenas os alimentos de origem animal fornecem o nutriente. Por isso, existe a orientação para suplementação crônica desse nutriente em adeptos.

COMO É A ALIMENTAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES VEGETARIANAS DENTRO DO PNAE?

“A apresentação da alimentação vegetariana é aceitável para os estudantes como uma possível escolha ou necessidade individual/familiar, mas não a sua imposição. Nessa leitura, os estudantes que estão inseridos em hábitos alimentares vegetarianos, por opção pessoal ou familiar ou outras condições especiais, têm assegurado, no âmbito do PNAE, o fornecimento de alimento adequado à sua opção/condição. Assim, o planejamento dos cardápios precisa de uma atenção especial por conta dos nutrientes limitantes no fornecimento.” (Planejamento de cardápios para a Alimentação Escolar, FNDE)

No que se refere aos cardápios planejados para o PNAE, a Lei n° 11.947/2009 informa que aqueles deverão ser elaborados por nutricionistas, respeitando-se as recomendações nutricionais, os hábitos alimentares, a cultura e a tradição alimentar local. Nos cardápios avaliados durante os anos de 2018 e 2019 pela COSAN as substuições mais frequentes da proteína animal foram: proteína texturizada de soja (PTS), leite de arroz, pasta de amendoim e leite de aveia.

É obrigatória a inclusão de alimentos fonte de ferro heme – presentes em alimentos de origem animal – no mínimo 4 dias por semana nos cardápios escolares. No caso de alimentos vegetais, que são apenas fonte de ferro não heme, estes devem ser acompanhados de facilitadores da sua absorção, como alimentos fonte de vitamina C. 

CONCLUSÃO

O vegetarianismo na infância é viável, se bem equilibrado e planejado e endossado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira e por entidades como a Associação Americana de Dietética, Sociedade Vegetariana Brasileira e Sociedade Brasileira de Pediatria. A vontade da criança e do adolescente de ser vegetariana deve ser atendida. Isso porque o respeito à diversidade e à cultura alimentar é uma premissa que não pode ser negligenciada, uma vez que é parte da valorização do ser humano, além da sua condição biológica, enquanto protagonista das suas escolhas alimentares.

Conteúdo elaborado e revisado por Nutricionistas.

Post autoral Cecane Ufrgs

REFERÊNCIAS:

https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/pnae/manuais-e-cartilhas/MANUAL_V8.pdf

https://materiais.svb.org.br/e-book-guia-infantilhttps://moodle.ufrgs.br/pluginfile.php/7962759/mod_resource/content/1/SVB-guia-infantil_2020-web.pdf

https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/pnae/media-pnae/notas-tecnicas/2020/NotaTcnican1894673AtualizaodasrecomendaesacercadaalimentaovegetariananoProgramaNacionaldeAlimentaoEscolarPNAE.pdf

https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao/resolucoes/2020/resolucao-no-6-de-08-de-maio-de-2020/view

https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf

https://www.sbp.com.br/pediatria-para-familias/nutricao/vegetarianismo-na-faixa-etaria-pediatrica/

https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/pais-sao-condenados-por-dieta-vegana-restritiva-que-teria-causado-danos-ao-desenvolvimento-da-filha/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19562864/

https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/pnae/media-pnae/notas-tecnicas/2020/NotaTcnican1894673AtualizaodasrecomendaesacercadaalimentaovegetariananoProgramaNacionaldeAlimentaoEscolarPNAE.pdf